
O CAMINHO DA REPORTAGEM
O processo de apuração se iniciou na estação Brás, uma das mais movimentadas da Capital. Logo de início, nos deparamos com a ação rápida de policiais ferroviários federais enquanto realizavam uma apreensão das mercadorias de um vendedor que fora levado a uma delegacia localizada na parte externa da estação. Os agentes federais são a lei nos trilhos, responsáveis pela manutenção da ordem e coibir atos ilícitos, o que, no universo do trem, os marreteiros chamam de “rapa”. Devido a atuação dos policiais, a relação com os vendedores ambulantes não é amigável.
Uma vez dentro do trem, através de pequenas e curtas interações com os ambulantes, procuramos outras formas de abordagem e de coleta de informações e imagens. Com câmeras grotescamente escondidas e gravadores sempre ligados, fomos indicados a nos direcionar a estação USP Leste, da Linha 12 da CPTM.
A partir daí, decidimos que faríamos o trabalho jornalístico de maneira cautelosa, não deu certo. Na intenção de obter flagrantes da ação dos marreteiros, adentramos ao mundo do trem e observamos atentamente a circulação agitada dos vendedores ambulantes, até que fomos descobertos.
Notamos uma movimentação estranha, os comerciantes evitavam de passar por nosso vagão, “gritavam” ameaças com gírias em tom de voz alterado. Rapidamente nos vimos expostos a extensa rede de comunicação que permeia o submundo dos marreteiros, pois discretamente, através de seus grupos de celular alertavam a seus companheiros sobre olhos indesejáveis nos vagões. “Filmaram o marreteiro, filmaram o marreteiro”, gritava um deles, enquanto passava por nós no trem.
A correria se uniu à preocupação ao desembarcarmos na estação USP Leste, entre trocas de olhares, e algumas provocações, nos vimos num momento de decisão, entre a cruz e espada, deveríamos resolver se iríamos nos esconder, e evitar um possível problema, ou se aproveitaríamos da situação e faríamos disso nosso primeiro contato.
O improviso faz parte do jornalismo. Portanto, a abordagem aos exaltados marreteiros não podia ser diferente, sem frases preparadas ou algum tipo de discurso, apenas com a coragem do bom jornalista, encaramos o risco.
No início a conversa foi confusa. Muitas vozes se misturaram, e a mensagem dos marreteiros era só uma: “Por quê estão nos filmando?” Muitos ali tinham passagem pela polícia, e não podiam arriscar terem sua imagem veiculada em grandes meios de comunicação. Uns mais exaltados, taparam seus rostos com a roupas, apontavam e mostravam suas ”tatuagens de cadeia”.
A solução foi sermos honestos e diretos. Explicamos calmamente que éramos estudantes de jornalismo e que nossa intenção para a matéria era de retratar o mundo dos vendedores ambulantes e não os denunciar. Da confusão veio uma luz, um rapaz calmo se aproximou de nós, seu nome era a Mikael, muito bem vestido se destoava dos outros, com polo, suéter e sapa tênis nos introduziu a aquela realidade, apresentando os grupos do WhatsApp, os tipos de vendedores, suas estratégias de venda e nos colocando no caminho certo.